Genealogia dos fenômenos espíritas
Cairbar Schutel
Os fenômenos espíritas datam da mais remota antiguidade. Desde que se fizeram sentir nas almas os primeiros albores da espiritualidade, em todos os tempos e em todos os países os Espíritos vêm acionando os homens para um progresso crescente de luzes e de verdades que constituem as glórias das civilizações.
É por isso que se diz que o Espiritismo é tão velho como o mundo; ele se perde nas brumas das eras, assistiu o florescimento das primeiras inteligências que, absortas, contemplaram os céus marchetados de estrelas, e viu-as lançarem na terra os primeiros grãos, cujo trabalho constituiria o início da escada por onde teriam de subir aquelas almas, ainda simples e ignorantes, mas já dotadas da perfectibilidade para se elevarem um dia a um estado de perfeição espiritual.
As idades mais antigas, a da pedra ou paleolítica e a idade do bronze ou neolítica, nos demonstram perfeitamente que todos os povos primitivos, a despeito mesmo da sua inferioridade moral e intelectual, tinham crença arraigada na existência dos espíritos, tais as manifestações que verificavam continuamente. Até o mesmo culto fetichista de objetos inanimados e dos animais ou a zoolatria não representam para esses povos mais do que um símbolo de atração para a invocação dos manes, dos antepassados e dos espíritos.
E se é verdade que algumas tribos selváticas hodiernas conservam o fetichismo primitivo, assim como os insulares da Polinésia, os negros, os peles vermelhas da América, as hordas da Malásia, é inegável que as almas dos mortos são o objeto principal do seu culto.
David Livingston, no seu livro “Missionary travels”, diz: “Que todos os selvagens em geral acreditam na vida de além-túmulo e na possibilidade das intervenções de seres sobre-humanos. Como eles supõem que entre as almas há boas e maléficas, as evocam ou as conjuram, seja por preces, seja levando, como a maior parte dos negros, filacteres chamados por eles gris-gris!”
Perron d’Arc diz que os selvagens australianos à noite vão aos cemitérios para obter comunicações da parte dos mortos. Eles conservam as tradições dos antepassados pré-históricos e asseveram mesmo ouvir vozes que descem das árvores, saindo dos troncos e sopros que passam e se elevam das ervas.
No Guiné é crença que as almas dos mortos se utilizam até dos objetos de que têm necessidade.
Olans Magnus diz que nos confins do mar glacial, onde se forma uma península, há povos chamados Pilapianos, que bebem, comem e conversam com os espíritos.
Nas ilhas Carolinas, os malaios, os negros da Etiópia, do Sudão, da Guiné, do Congo, os cafres, os hotentotes, os indianos da América, os peles vermelhas, todos creem na intervenção dos espíritos e não têm outra religião a não ser a dos manes. (Leia-se Lutke, “Viagem ao redor do Mundo”; Loskill, “História das Missões”; Dixon, “Nova América”).
Por mais que nos esforcemos a procurar a origem dos fenômenos espíritas, em parte alguma a encontramos; ela é, pode-se dizer, inata no homem. Os patagônios têm uma crença firme na comunhão das almas.
Todas as populações chamadas “bárbaras” pela civilização helênica admiram em todos os tempos a existência de um outro mundo e comunicação com os espíritos. A parte mítica da sua história assim nos afirma. Os citas, os getas, os chamans, os kamuks, os tchuvaches, segundo Vrangel e Ed. Spencer, evocam e exorcizam os espíritos.
Al. De Lerchine, trad. de Ferry de Pigny, no seu livro “Descrição das hordas e das estepes de Kirghiz-Kazaks”, diz que, na opinião dos escandinavos, os fiuneses e os lapônios eram todos feiticeiros, como são entre os samoiedas e os kirguises, visto a sua faculdade de fazer conjurações e expelir espíritos.
Os germanos e os celtas entravam em comunicação com as almas por meio das sibilas. Os gauleses não só acreditavam na vida futura como achavam que as almas conservavam a sua individualidade e vinham se comunicar com os vivos. Dos selvagens aos bárbaros, dos bárbaros aos povos semicivilizados, até aos nossos tempos, nenhuma civilização foi excluída da manifestação dos mortos. Os fenômenos espíritas, debaixo de um véu espesso que constitui um grande mistério, têm sido a base fundamental das crenças desfiguradas em seu sentido íntimo pelos dogmas e sacramentos sacerdotais.
No Egito é crença geral que as almas não deixam a Terra e aqui habitam seres invisíveis que se comunicam conosco. A Índia, a China, a Assíria, a Palestina, a Pérsia professavam as mesmas idéias. Freret diz que a evocação dos mortos torna-se por toda a parte uma potência e as suas práticas se espalham em todo o Oriente.
Se passarmos ligeiras vistas nas Escrituras veremos que os hebreus tinham como objeto principal de sua crença a comunicação com os espíritos. Fenômenos extraordinários foram presenciados por esse povo “escolhido” para grandes empresas. Como as pitonisas, sibilas e bardos e os ascetas da Tebaida eles penetravam o mundo invisível, sofrendo a influência dos espíritos superiores que lhes dilatavam o horizonte intelectual. Foi tão grande e havia tomado tais proporções o comércio com o invisível, degenerando abusos e ação de espíritos imperfeitos e enganadores, que Moisés proibiu aos hebreus a evocação dos mortos.
Na Grécia os fenômenos espíritas chegaram no seu apogeu. Nos templos de Ísis, de Esculápio, no antro de Trofonios, no oráculo de Delfos, de Dodona e de Epidauro, as pítias caíam em êxtase e profetizavam ao hierogramatas, como ao povo reunido. As sibilas de Dodona, de Júpiter Ammon e as de Cumas caíam em convulsões e escreviam revelações até nas folhas das árvores.
Finalmente, a fenomenologia espírita tem se verificado em todos os países e em todas as raças, como uma graça inata no homem para o seu desenvolvimento espiritual. Ela não apareceu primeiro num indivíduo ou num lugar para se estender a outros; nascera em cada homem como nasceram na terra todas as sementes, apareceu como apareceram no mundo as palmeiras e os carvalhos; é, em suma, sem genealogia.
Revista RIE