As idéias sobre Deus precisam ser completamente reformadas.
Saara Nousiainen, quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
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As idéias sobre Deus precisam ser completamente reformadas.
Saara Nousiainen
Não se justifica que hoje, com todo o conhecimento que a humanidade possui, ainda se possa entender Deus na forma como vem sendo apresentado desde Moisés.
Quem lê o Antigo Testamento, sem preconceitos, percebe como em inúmeros momentos ele vibra com a força do açoite, da espada e da vingança, mostrando um Deus parcial, contraditório, quase sempre irado, às vezes furioso, injusto, rancoroso e cruel. Também se apresenta em diversas ocasiões à semelhança de um aprendiz de Criador, fazendo experiências, sem saber exatamente o que delas surgirá.
Logo no primeiro capítulo da Bíblia, em Gênesis, versículos três e quatro, se diz o seguinte: “Disse Deus: haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa.”
Ora, será que Deus não sabia que a luz é algo bom? Viveria Ele nas trevas?
Da mesma forma, após cada ato da criação, conforme a Bíblia, Deus teria observado que aquela ação resultara em algo bom e ao final, depois de tudo pronto, Ele foi examinar para ver se tudo que havia criado estava perfeito.
Reflitamos por instantes sobre a grandeza do universo, a infinidade de galáxias que se perdem na imensidão cósmica; sobre a estrutura do nosso planeta, a natureza, onde todos os elementos se conjugam com perfeição absoluta, para possibilitar a vida... Se pensarmos no ser humano, na perfeição da máquina que é o seu corpo, na fabulosa estrutura do seu cérebro, no insondável de sua mente, do seu psiquismo...
Se refletirmos sobre qualquer aspecto do universo e da vida e perguntarmos a nós mesmos: quem fez tudo isto?...
É possível acreditar que o Criador de tudo, da imensidão cósmica e da vida, inteligência suprema, soberano poder, poderia estar fazendo experiências com a criação, para ver no que daria, assim como se diz na Bíblia?
E poderia Ele fazer algo imperfeito, para depois ir averiguar se houve erros na sua criação?
Será que Deus, a absoluta perfeição, poderia arrepender-se de ter feito algo, como se não soubesse bem o que fazer e acabasse errando em seus atos?
Em Gen. 6:6 e 7 se diz: “... então se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.
Disse o SENHOR: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”.
Os arrependimentos de Jeová estão ao longo da história bíblica, como, por exemplo, em Ex. 32:14, por haver ameaçado o povo de Israel; em 1o Sam. 15:11 e 35, por haver feito rei a Saul; em 2o Sam., por ter dizimado 70 mil pessoas do seu povo; em Jonas 3:10, arrependeu-se do mal que prometera fazer a Nínive, etc.
Entretanto, em 1o Samuel 15:29, este diz, referindo-se a Deus: “Também a Glória de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é homem para que se arrependa”.
Se tais feitos e tal mentalidade, conforme o que foi mostrado até aqui, são até compreensíveis e compatíveis com uma época como aquela, em que a barbárie predominava, acredita que poderiam originar-se diretamente de Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, perfeito em todos os seus atributos?
Com relação a essa perfeição, se refletirmos, perceberemos que o Criador de tudo tem de ser absolutamente perfeito, senão, tudo seria o cáos.
Em Deut. 10:18 se diz que Deus “faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes”, concluindo: “Amai pois o estrangeiro, porque fostes estrangeiro na terra do Egito”. Entretanto, ainda em Deut. 20:16, orientando a forma como seu povo deveria invadir e exterminar seis nações para apossar-se de suas terras, Jeová manda matar tudo que tenha fôlego.
Em 1o Samuel 28:17/19, referindo-se à guerra de Israel contra Amaleque, num momento de furor Jeová mandou matar tudo que tivesse fôlego, inclusive as crianças e até mesmo os animais, e porque Saul deixara com vida alguns animais para oferecer-lhe como holocausto, castigou-o com a morte, e não só a ele, mas a toda a sua família, entregando ainda o povo de Israel nas mãos dos seus inimigos.
O escritor e estudioso da Bíblia, Jaime Andrade, no livro O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, conta mais de 60 acessos de cólera atribuídos a Jeová, entre os livros Êxodo e 2o Reis.
ALGUNS QUESTIONAMENTOS
a) Na sua concepção sobre Deus, acha que Ele poderia agir assim, de forma tão cruel, tão perversa, mandando matar tudo, até as crianças, e depois castigar com a morte Saul e toda a sua família e ainda o próprio povo de Israel pelo fato dele ter deixado vivos alguns animais?
b) Acha que Deus, a perfeita justiça e fonte do amor universal, poderia ter rompantes de ira ou furor?
d) Acredita que o Criador poderia ser tão perverso e sanguinário como é mostrado no Antigo Testamento, não só nessa, como também em centenas de outras passagens?
Pelas citações feitas até agora, que representam uma mínima parcela das incongruências e absurdos encontrados no Antigo Testamento, com relação a Deus, ou Jeová, podemos levantar algumas hipóteses:
a) Certamente Moisés, visando infundir respeito naquele povo rude e orgulhoso, atribuía à divindade todos aqueles rompantes de ira, ameaças e ordens cruéis de que o Antigo Testamento está repleto, assim como, também, de tantas outras leis e orientações, como as dos holocaustos, oferendas etc.;
b) Conforme Jayme Andrade, é bem provável que os seres espirituais responsáveis pela evolução do povo israelita se fizessem representar por Jeová, que não seria Deus, mas sim, uma entidade mais ou menos identificada com a índole guerreira da raça, porque é de se supor que cada homem e cada povo tenha um Guia espiritual compatível com seu próprio grau evolutivo. Talvez fosse algum dos seus antepassados, dotado da autoridade necessária para impor-se e dominar.
O escritor Aureliano Alves Neto, no prefácio do livro O Espiritismo e as Igrejas Reformadas transcreve palavras do Reverendo Maurice Elliot, do livro Erros Palpáveis da Bíblia, que diz: “A Bíblia erroneamente compreendida é o pior inimigo da humanidade (...) Nenhum livro é infalível. Nenhuma Igreja é infalível. Nós temos sido erroneamente ensinados. Deus é Verdade. Amar Deus é amar a verdade, amar a busca da Verdade, amar a luta pela Verdade. Não há outro meio.”
Observe-se que essas palavras foram ditas por um reverendo.
É fácil concluir, então, que a imagem que as religiões fazem sobre Deus é absolutamente incompatível com a inimaginável grandeza do Soberano Senhor, Criador e mantenedor do universo, da vida e das leis que tudo regem. Se não somos sequer capazes de entender o infinito, nas dimensões do tempo e do espaço, não devemos ter a pretensão de querer definir Deus.
Na codificação da doutrina espírita, Allan Kardec perguntou aos espíritos superiores que lhe respondiam as indagações: “Que é Deus?” A resposta foi:
“Deus é a Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas”.
E continuaram os espíritos a explicar, dizendo que Ele é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente e soberanamente justo e bom.
Outras explicações sobre Deus estão muito bem definidas e detalhadas no primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos, obra basilar da codificação da Doutrina Espírita.
O espírito Miramez, no livro Filosofia Espírita, vol.1, psicografado por João Nunes Maia, falando sobre Deus, assim se expressa:
“A Suprema Majestade do Universo é, por dignidade própria, o Inconcebível e o Incomparável. Nada se pode comparar ao Arquiteto Universal; da Sua vida estuante e vigorosa saem vidas com a marca do Seu amor. Somos todos filhos do Amor.”
“Deus é infinito nas Suas perfeições, nas qualidades inerentes à Sua personalidade que se irradia em todas as direções, que sustenta e dá existência a todas as dimensões do existir. Ele está presente nas claridades do máximo e na luz do mínimo; vibra nas formas das estrelas e canta nos movimentos dos átomos, faz mover todas as constelações e harmoniza todo o ninho cósmico”.
Essas afirmativas, que se casam perfeitamente com o bom senso, nos deixam mais leves, mais livres e de bem com a vida, porque começamos a entender que Deus não nos esmaga com seus rompantes, não nos rejeita em razão de predileções, não nos castiga por faltas inerentes à nossa imaturidade espiritual, mas nos conduz com justiça e amor no rumo da nossa evolução espiritual, dando-nos sempre novas e renovadas oportunidades de reajuste com suas leis.
Podemos então entender que, para os judeus, o Antigo Testamento deve ser um livro sagrado, por conter toda a sua história e as bases de sua vida religiosa.
Mas para os demais, com outras bases culturais e, nesta época, guiar-se por ele, ao pé da letra, reflete estagnação evolutiva, e, conforme disse o Reverendo Maurice Elliot, “A Bíblia erroneamente compreendida é o pior inimigo da humanidade”.
PERGUNTA LÓGICA
Onde então está a verdade religiosa?
A verdade plena, absoluta, está com Deus. As religiões possuem parcelas ou fatias dessa verdade; por isso, elas são diferentes umas das outras. É por isso que tantas pessoas se convertem a determinada religião, mas acabam passando para outra, até encontrar aquela que se ajuste melhor à sua própria faixa evolutiva, ao seu psiquismo.
Essa é a procura da verdade. O ser humano, nesse impulso interior da evolução, procura Deus. E, de acordo com a sua estrutura psíquica, ele a encontra na religião cujas idéias se casam com a sua própria natureza, com seu grau evolutivo, com a sua maneira de ver, pensar e sentir… ou então, com a sua preguiça evolutiva, seu comodismo, ou seus interesses.
Mas a verdadeira religião ainda vai existir na Terra, quando o ser humano passar a ocupar-se em desenvolver a fraternidade, os bons sentimentos, a conduta honesta e nobre, sem orgulho, sem vaidades, sem ganância e sem ódios. Será a religiosidade vibrando no íntimo do ser. Todas as outras são apenas formas ou fórmulas criadas para ajudar o ser humano a um dia chegar à verdadeira religião, aquela que Jesus apresentou quando disse: “ Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
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