Associação de Divulgação da Doutrina Espírita

São José do Rio Preto - SP

ADULTOS MIRINS

Marcos Paterra - João Pessõa -PB - terça-feira, 4 de novembro de 2014

ADULTOS MIRINS

 Uma visão panorâmica das influencias  da violência na  infância.

Sob abordagem interacionista[1]  esse artigo analisa  o Homem como um “Ser Biopsicossocial”, sujeito as influencias sociais e culturais, que o induzem de maneira subliminar  a agir de forma preconceituosa a diversos contextos; sob essa ótica  abordamos  as diversas perspectivas das causas precursoras da  violência  contra crianças, e de forma charneira cruzamos  a “biopsicossociologia” [2] e a suas relações  “Somatopsíquicas”[3]  que refletem  diretamente em fenômenos psicossociais[4].

Muitas vezes nos questionamos porque existem pessoas que tratam de forma tão brutal as crianças, conforme  Marcos Paterra (2010) em seu artigo “Trabalho Infantil no Brasil”[i] o abuso de crianças é praticado há muito tempo:

 “[...] O problema é cultural sim, mas vem desde quando as caravelas vindas de Portugal para colonizar a ainda chamada "Terra de Santa Cruz". Esses navios traziam homens, algumas mulheres e crianças que eram para lhes servir como grumetes, pajens, ou "órfãos do rei” (meninas pobres dos orfanatos, para se casar com os colonizadores portugueses); essas crianças sofriam, eram abusadas sexualmente, tinham dias inteiros de trabalhos pesados e perigosos, quando os navios sofriam ataques de piratas, eram com frequência assassinadas ou escravizadas, sendo prostituídas e exauridas até desfalecerem, quando ocorria algum naufrágio, as crianças eram sempre esquecidas e às vezes lançadas ao mar para não ocuparem espaço nos barcos salva-vidas.”

Conforme o autor no século XIX na Revolução Industrial as mulheres trabalhavam como escravas e nascia assim à criança operária, potencial vítima das transformações econômicas, sociais e familiares impulsionadas pela referida revolução. A sua mão de obra era aproveitada e assumia-se muitas vezes como fundamental na manutenção econômica do agregado familiar.

“No Brasil, as crianças eram tratadas como animais domésticos, após completarem aproximadamente cinco anos de idade, eram inseridas no contexto do trabalho escravo, quando milagrosamente sobreviviam, pois as mães trabalhavam excessivamente durante a gravidez em más condições de alimentação e higiene. As crianças negras, filhos dos escravos, só eram "menos mal tratadas" quando o dono dos escravos tinha poucos escravos e situação econômica mais precária, vivendo do trabalho dos seus escravos, vendo por tanto lucro no nascimento de mais um escravo "uma benção de Deus". É constatado que no tocante a educação uma parcela da "sociedade" era excluída, não possuía qualquer valor. [...] Os adultos se relacionavam com as crianças sem discriminações, falavam vulgaridades, realizavam brincadeiras grosseiras, todos os tipos de assuntos eram discutidos na sua frente, inclusive a participação em jogos sexuais. Isto ocorria porque não acreditavam na possibilidade da existência de uma inocência pueril, ou na diferença de características entre adultos e crianças.” (PATERRA. 2010)

Em verdade o trato com brutalidade/abuso para com as crianças remota de muito tempo antes, onde enfatizamos o fato de que as crianças eram tratadas como  adultas a partir dos sete anos  e só passaram a ser vistas como crianças/adolescentes depois do  século XVII, nesse ponto  verificamos  de que Jean Jacques Rousseau[5]  foi um visionário e  mostra-nos como a criança é facilmente influenciada com a frase: “A criança tem um modo singular de entender e de ver o mundo”[ii], e é devido a esse “Modo singular” que devemos ter maior cuidado com o que nossos filhos veem ou escutam.

“A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perturbar essa ordem, produziremos frutos prematuros que não terão nem madureza nem sabor, e não tardarão a se corromper; teremos doutores infantis e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são próprias.” (ROUSSEAU. P.74. 2004).[iii]

Avaliando nessa perspectiva, não é difícil perceber que culturalmente as crianças foram tratadas de maneira preconceituosa e transmitiram esse costume de geração em geração.

Vygotsky[6](2002) através da teoria do  desenvolvimento proximal, demonstra  a necessidade do ser humano em  interagir com o outro para aprender e desenvolver suas habilidades, considerando o papel da instrução um fator positivo, no qual a criança aprende conceitos socialmente adquiridos de experiências passadas e passarão a trabalhar com essas situações de forma consciente. Se uma transformação social pode alterar o funcionamento cognitivo e pode reduzir o preconceito e conflitos sociais, então esses processos psicológicos são de natureza social. Devem ser analisados e trabalhados através de fatores sociais.

Sob esse prisma, percebemos como as influencias culturais e sociais no decorrer da história moldou de forma direta e indireta as atitudes comportamentais de homens e mulheres, dobre tudo com relação ao preconceito.

As sociólogas Felícia Madeira e Eliana Rodrigues (1998), no artigo “Recado dos jovens,” enfatizam que a história, a tradição e a cultura contribuem para a expressão dos valores dos jovens, pois apesar das diferenças existentes entre eles e independentemente de condição socioeconômica, esse grupo etário apresenta e cultiva identidade própria.

Rousseau em seu tratado pedagógico da educação natural constrói de forma autêntica e natural, que é importante educar e respeitar a criança em seu mundo e que os valores morais e éticos devem ser construídos na necessidade e no cuidado que o adulto deve fornecer durante a infância. Assim é importante perceber que a infância precisa ter um acompanhamento não de repressão ou de imposição do mercado, mas sim de liberdade bem regrada logo na infância.

A violência contra as crianças é constituída devido a equívocos de pensamentos formados durante centenas de gerações na cultura e sociedade, como consequência as crianças de forma reflexa tendem a ser violentas e confusas  onde dentre seus sentimentos infantis  e compromissos de adultos  tornam-se adolescentes problemáticos.

A criação humana, ultrapassa muitas vezes a realidade dos fatos, refletindo estados interiores variados e de enorme valor para a construção de nosso patrimônio cultural.

Sob esse prisma e em um olhar espírita, destacamos que somos reencarnantes, vivemos dentre os selvagens da pré história onde não havia afeto familiar, fomos pertencentes as massas que ignorava a infância e tratava as crianças como adultos, e portanto carregamos essas informações latentes em nosso períspirito e muitas vezes ainda confusos com as mudanças culturais agimos de impulso,  onde atrelados na ignorância espiritual, deixamos extravasar o ser  presos a paradigmas do passado que carregamos dentro de nós.

Percebemos, portanto que a construção de nosso “Ser Cognoscente”[7] esta vinculada diretamente a cultura social e familiar formando assim paradigmas que  alimentam nossos preconceitos  os quais são expostos muitas vezes em forma de violência.

 Em a Gênese[iv] Kardec nos diz:

 “[...] se o mal existe, tem uma causa, umas o homem pode evitar e outras  independem de sua vontade[...];Porem , os  mais  numerosos são aqueles  que o homem criou para si , por seus próprios  vícios , aqueles que provem  do seu orgulho, de sua cobiça, de seus excessos em todas as coisas.”[8]

E nos esclarece  na questão 754 de “O Livro dos Espíritos”[v]:

A crueldade não derivará da carência de senso moral?
Dize que o senso moral não está desenvolvido, mas não que está ausente; porque ele existe, em princípio, em todos os homens; é esse senso moral que os transforma mais tarde em seres bons e humanos. Ele existe no selvagem como o princípio do aroma no botão de uma flor que ainda não se abriu.”

A violência esta enraizada em um processo de  má educação a nível histórico, e se faz necessário que se torne viável e eficaz  a Declaração de Direitos humanos, que aborda de forma sublime esse assunto:

  “(...) a educação contribui também para: a) criar uma cultura universal dos direitos humanos; b) exercitar o respeito, a tolerância, a promoção e a valorização das diversidades (étnico-racial, religiosa, cultural, geracional, territorial, físico-individual, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade, de opção política, dentre outras) e a solidariedade entre povos e nações; c) assegurar a todas as pessoas o acesso à participação efetiva em uma sociedade livre.” (PMDH, 2005, p. 25)[9].

Só assim nossos netos, bisnetos... Nós!  No amanhã viveremos sem violência.

 

 

 

 

 

[1] Perspectiva interacionista: O funcionamento psicológico humano é resultado de elementos que vem do sujeito e do ambiente. Resultado de uma troca, ou seja, de uma interação. Acrescentando que essa interação entre o eu e o outro, o eu e o ambiente, acontece mediada pela linguagem e estimula os processos cognitivos.

[2] Biopsicossociologia: É uma ciência transdisciplinar que convoca aspectos da Biologia, da Psicologia e da Sociologia e que visa uma explicação global de fenómenos humano-sociais.

[3]Somatopsíquica :  Relativo ou pertencente simultaneamente ao corpo e à mente.

[4] Psicossociologia: Cruzamento entre psicologia e sociologia, valorizando a percepção psicológica sobre eventos sociais.

[5] Jean Jacques Rousseau (1712-1778) - filósofo, escritor, teórico político e um compositor musical autodidata.

[6] Lev Semionovich Vygotsky (1896-1934) -  professor e pesquisador russo,   autor de dois livros básicos: Pensamento e Linguagem e A Formação Social da Mente  se tornaram um marco nos estudos do desenvolvimento humano.

[7] Ser Cognoscente, é quando se aprende na interação com o meio e com os outros construindo sua identidade para alcançar o conhecimento e a autonomia.

[8] Allan Kardec - Livro “A Gênese”  Capitulo III

[9] BRASIL. Declaração e Programa de ação da Conferencia Mundial sobre  os Direitos Humanos. Viena, 1993.

 

 

 

REFERENCIAS:

 

[i] PATERRA. Marcos T. G. Trabalho Infantil no Brasil. http://literaciasoscrianca.blogspot.com/2010_12_03_archive.html acessado em 16/03/2014.

 

[ii] ROUSSEAU, Jean Jacques. Emilio ou da Educação. Rio de Janeiro: Ed.  Bertrand Brasil S.A. 1992. .  Disponível em: http://educar.no.sapo.pt/teorias.htm Acesso em: 10/03/2014.

 

[iii] ROUSSEAU, Jean Jacques. Ensaios Pedagógicos. Bragança Paulista - SP: Editora Comenius, 2004.

 

[iv] KARDEC, Allan. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, Ed. FEB. Rio de Janeiro. 2007.

[v] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, Ed. FEB. Rio de Janeiro 1999

 

 

 

ARTIGO PUBLICADO PELA REVISTA RIE EM OUTUBRO DE 2014

 

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